terça-feira, 16 de abril de 2019

Estudos sobre Anne Frank – Parte 3: Livro 'Recordando Anne Frank'

Após ler o diário de Anne Frank, esse é o livro que eu mais recomendo ler em seguida, pois aborda o antes e depois do diário, nos aprofundando bastante na história de Anne e sua família:


"Recordando Anne Frank" foi escrito por Miep Gies com a ajuda da escritora Alison Leslie Gold. A edição que li é uma versão em português produzida pela editora Gutenberg, traduzida por Iris Figueiredo.


Por que começar por esse livro?


O livro de Miep traz uma perspectiva mais ampla sobre o início e impacto da Segunda Guerra Mundial, o avanço do nazismo e por consequência a perseguição aos judeus que resultou na produção do Diário de Anne Frank. O relato de Anne é uma pequena fatia, única e rara, rica em detalhes e sentimentos de um evento de proporções gigantescas e catastróficas contra a humanidade. A história contada por Miep tem um ponto de vista mais amplo, parte das memórias de uma mulher bastante amadurecida e experiente, que desde cedo teve que lutar para sobreviver à miséria que atingia boa parte da Europa.

Mesmo se você tem poucas informações sobre a Segunda Guerra Mundial, ou da própria Anne Frank, esse livro é bastante interessante, pois serve como uma introdução não apenas sobre a guerra, mas também sobre Anne e as pessoas que conviveram com ela no Anexo Secreto. Esse livro pode lhe parecer como uma luz que foca em lugares totalmente desconhecidos, complementando as reflexões de Anne e indo para além do que Anne nunca poderia ter relatado: o fim da guerra e suas consequências. E indo um pouco mais além, sabemos também sobre a repercussão daqueles escritos salvados pela própria autora do livro.


Quem foi Miep Gies?




Hermine Gies-Santrouschitz, conhecida por Miep, foi uma das principais personagens da história de Anne Frank, pois ela atuava como uma "ponte" entre os judeus reclusos e o mundo exterior. Enquanto Anne relata seu mundo enclausurado e limitado pelas paredes do anexo, Miep conta a visão de alguém do lado de fora, "livre" - isso, livre com aspas, pois ninguém estava de fato livre com a invasão alemã.

Inicialmente trabalhando como secretária da empresa de Otto Frank, o pai de Anne, Miep foi ganhando a confiança da família e se tornou uma das peças fundamentais para a sobrevivência do grupo em segredo por mais de 2 anos. E apesar de todo esse empenho, ela nunca se considerou uma heroína, inclusive inicia o livro com essa frase no prólogo:

"Eu não sou uma heroína." 

Sempre discreta em relação a sua missão de ajudar a família, Miep apenas relatou sua parte da história em 1987, mais de 40 anos depois do fim da guerra. A versão brasileira do livro que li para o estudo é de 2017, sendo que contém um posfacio escrito em 2009, na altura do centésimo aniversário de Miep Gies, que contou mais alguns detalhes que ocorreram após a publicação do livro - como o falecimento de seu marido Jan - as diferentes edições publicadas do diário, e até mesmo sobre a castanheira descrita por Anne que teve que ser derrubada, entre outras informações bastante pertinentes.


Miep Gies faleceu no dia 11 de janeiro de 2010 aos 100 anos na Holanda.


O Livro


O livro é divido em três partes, sendo:

1ª Parte - Refugiados - um pouco do passado de Miep, que nasceu em Viena na Àustria, e se considerava uma refugiada assim como a própria família Frank. Ela relata como foi seu começo em Amsterdã, passando pelo momento em que conhece seu futuro marido Jan Gies, quando começa a trabalhar para Otto Frank, até o momento em que ajuda a família a se esconder nos fundos do prédio comercial, local que veio a ser conhecido como o anexo.

2ª Parte - No esconderijo - período em que ajudou a família Frank e os Van Pels (chamados por Van Daan no diário de Anne) a chegada do dentista Fritz Pfeffer (Albert Dussel no diário) e cobre praticamente todo o período do Diário de Anne Frank (lembrando que Anne começou a escrever no diário dias antes de perder a liberdade).

3ª Parte - Os dias mais sombrios - se inicia com o descobrimento da família no anexo, passando por todas as aflições de Miep e Jan para saberem do paradeiro de seus amigos, até o retorno de Otto Frank após o fim da guerra.

"O Sr. Frank era um homem sagaz. Quaisquer que fossem seus pensamentos e suas percepções sobre sua posição como judeu, eu sabia que seriam inteligentes."

Assim como aqueles dias foram muito difíceis para as pessoas no anexo, foram também para os que estavam do lado de fora, cada um a sua maneira. Miep narra todas as dificuldade de conseguir comida para o grupo e sua família, fala sobre outros amigos e conhecidos judeus que ajudou a se esconder, dos que foram desaparecendo, do trabalho sorrateiro e confidencial de seu marido Jan - sendo parte de uma resistência que agia na clandestinidade para conseguir coisas no mercado negro e ajudar também outros fugitivos.

Talvez o que seja a parte mais interessante das memórias de Miep Gies, é a sua visão da família Frank antes do período de reclusão. Uma família de classe média educada, sem ser arrogante, que gostava de fazer reuniões agradáveis em sua casa com seus amigos mais próximos. Considerava Otto justo e inteligente, Edith uma mãe dedicada que se vestia bem, assim como fazia questão de que as filhas também tivesse boa educação e bons modos.

 Seu dialogo interno também é admirável, ao tentar sempre trazer uma sensação de normalidade em seu relacionamento com os escondidos do Anexo. Mesmo tendo vivenciado situações diárias de tensão e medo, Miep jamais transmitia suas preocupações aos seus protegidos, se esforçando para agrada-los de alguma forma, fazendo visitas diárias com informações (sempre que possível positivas) sobre o mundo lá fora.

Outro momento que vale a pena destacar é sobre a noite que Miep e Jan passam no anexo, por insistência de Anne. Ela nunca conseguiu dormir de verdade por lá:

"Não dormi; não consegui fechar os olhos. Ouvi o som de uma tempestade se formando, o vento soprando. O silêncio do lugar era opressivo. O medo daquelas pessoas trancafiadas ali era tão pesado que eu podia senti-lo me esmagando. (...) Agora eu sabia como os judeus se sentiam."

Tendo grande empatia pela situação de seus amigos judeus, Miep se arriscou e de fato fez todo o possível para manter-los a salvo, até mesmo indo encarar de frente um dos oficiais responsáveis pela prisão da família, que confirma a descoberta por meio de uma denúncia anônima, que na época era incentivada pelos alemães com gratificações em dinheiro.

Os "guardiões do anexo" com Otto Frank ao centro: Miep Gies na esquerda, Elizabeth "Bep" Voskuijl (Elli Vossen no Diário), no alto a esquerda Johannes Kleiman (Sr. Koophuis) e Victor Kugler (Victor Kraler).


Depois da Prisão


Todos os esforços de Miep para saber do paradeiro da família não geraram resultado. Ela é informada que o fato deles terem se escondido, evitando a convocação obrigatória, os colocava numa situação mais grave, sendo enviados as campos de concentração mais rígidos e distantes. De toda forma, o destino do grupo não teria sido melhor, pois muitos  daqueles que estavam em campos menos restritos (como relatado por Nanette Blitz Konig em "Eu sobrevivi ao Holocausto", 2015) também tiveram um final fatal.

Miep guardou os diários e folhas soltas escritas por Anne na gaveta da sua mesa no escritório, esperando o retorno da escritora para devolve-los. No dia 6 de junho de 1945, Otto Frank retorna após sua libertação no campo de Auschwitz, sabendo apenas que Edith, sua esposa, não sobreviveu.

As esperanças de que Anne e Margot estivessem vivas eram grandes, pois elas haviam sido enviadas para o campo Bersen-Belgen, onde não havia camera de gás ou outras formas de extermínio em massa. Na empresa, que funcionou durante todo o tempo da guerra, o Sr. Frank retoma sua posição de chefe, Miep segue em suas funções que nunca foram suspensas. Uma espécie de rotina habitual retornou a vida de ambos, ajudando a manterem suas mentes ocupadas com coisas além da guerra e do paradeiro das garotas Frank.

Pouco depois do que seria o 16º aniversário de Anne, em 12 de junho, Otto recebe a carta de uma enfermeira de Roterdã confirmando a morte das irmãs. Miep e Otto ficam, naturalmente, em choque com a notícia. O Sr. Frank então retorna a seu escritório na empresa. A única reação de Miep é de pegar os escritos de Anne, guardados em sua gaveta por quase um ano, e os entrega a Otto dizendo:

"Aqui está o legado que sua filha Anne deixou para você."


O que vem a seguir e a briga judicial sobre os direitos autorais do Diário


Na próxima parte do estudo, iremos entrar no diário de Anne Frank em si, falando de suas diferentes versões e fazendo alguns paralelos com os dias de hoje. Se quiser acompanhar esse estudo comigo, estarei usando como base a edição definitiva por Otto H. Frank e Mirjam Pressler, publicada pela Editora Record em 2015, 49ª edição. Mas se você tiver outra versão do diário, também poderá acompanhar os estudos com base nas datas de entradas. 

Infelizmente, por conta de uma questão burocrática e técnica sobre direitos autorais, o diário ainda não está em domínio público (no Brasil e em nenhum outro país) já que a Anne Frank Fonds, fundação Suíça criada pelo pai de Anne em 1963, detém os direitos autorais do diário. Existem atualmente 4 edições diferentes do diário (denominadas A, B, C e D) sendo que as mais completas (versões C e D) são edições mais recentes, que tem interferência na edição de Otto e da escritora Mirjam Pressler, fazendo com que a "autoria" do diário, fosse compartilhada com mais essas duas pessoas, o que teoricamente mudaria o prazo de liberação para domínio público. Anne morreu em 1945, sendo assim em 2015, o 70º ano necessário para manter esse direito, colocando o dia 1 de janeiro de 2016 como o dia em que o diário estaria em domínio público. Com a adição desses 2 nomes tudo muda, pois Otto Frank faleceu em 1980 e Mirjam Pressler ainda está viva.

Quem está na briga para a liberação de um edição livre do diário é a Casa de Anne Frank ("Anne Frank Stichting" no Holandês), que é uma instituição holandesa que cuida do Museu Anne Frank, bem como de toda a história e legado da família Frank. Para essa instituição, é fundamental essa liberação para que o diário possa chegar a mais pessoas e lugares, estando disponível inclusive numa versão online gratuita. Até esse momento não há uma decisão sobre a liberação desses direitos, que no momento seguem contados pela morte de Otto, atingindo 70 anos em 2050.

A Casa de Anne Frank preparou, durante 5 anos, uma edição online completa da obra, que estaria gratuitamente online em primeiro de janeiro de 2016.

Além de toda essa importância histórica e cultural do diário, ele é um dos livros mais vendidos no mundo e o interesse comercial da fundação é grande. Esse interesse comercial, na minha opinião, vai contra os propósitos de Anne e do próprio diário, que seria de tornar a história de Anne mais acessível a todos, independente de local e condição financeira. A Anne Frank Fonds alega que o valor  em direitos autorias recebido pelo diário, serve para sustentar projetos educacionais e caridosos da fundação, que visam propagar o legado de Anne Frank.


domingo, 7 de abril de 2019

Resenha 'Terra Molhada' de Thalita Coelho

"Mas não foi por acaso que amei seu sorriso. Nenhum acaso é forte assim. Prefiro chamar seu sorriso de destino."



Terra Molhada é um livro de poesia que faz a gente suspirar, seja de amor ou de dor, e até com algum humor, Thalita Coelho nos envolve numa jornada ao desconhecido familiar, que apenas uma mulher que ama mulheres poderia ter criado.


Em versos e prosas que se alternam com ilustrações inspiradas nessas mais de 100 páginas de poesias, somos embalados pelas força e vulnerabilidade traduzidas no papel por palavras sensíveis, muitas vezes também duras, que esse "quebra-cabeça" nos propõe.



Entre os altos e baixos desse eu lírico que se coloca de peito aberto ao leitor, somos provocados por essas peças, que vão formar mosaicos diferentes para cada um que se propor a montá-lo. Você pode sorrir de canto quando ler sobre "a curva mais bonita de uma mulher". Sentir arrepios ou estremecer com a direção de "lábios que ardem". Achar graça com a proposta de "dançar Chiquititas no meio da rua". Ser tomado pela melancolia de um coração que "recorda, até hoje / do peso que era ser rocha, / seca, sólida, só." As possibilidades são amplas, mas uma delas é certa: você será tocado profundamente.


"Terra Molhada" é um oásis com água fresca no meio de uma sociedade heteronormativa. Fonte de inspiração para todos os seres sensíveis, vital para as mulheres que amam mulheres.

"Minha maior luta
É amar a céu aberto"

Você encontra essa preciosidade no site da Amazon.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Estudos sobre Anne Frank – Parte 2: Minha leitura do Diário



Eu comecei a ler o Diário de Anne Frank pela primeira vez há alguns anos. Fiz como fazia com qualquer outra leitura, em cada momento que parava para ler, eu seguia até onde meu interesse parava, o tempo acabava ou o sono chegava. E estranhamente para mim a primeira opção é a que se tornou frequente para interromper minha leitura.

Parei de ler por um bom tempo, mas não parei de me questionar o motivo desse desinteresse. Talvez desinteresse não seja a melhor palavra para explicar o que acontecia, mas é a única que tenho agora. Então eu pensei em como aquele diário foi escrito. E passei a ler uma entrada por dia. Ou melhor, por noite. Fiz isso durante meses e houve momentos em que quis prosseguir adiante, lendo mais do que o combinado, mas não o fiz naquele momento. Minha conexão com Anne e suas palavras começaram quando senti o peso desse tempo de confinação. Não foi uma escrita planejada. Foi uma escrita guiada pela vida, por suas percepções e suas condições.

O começo é leve e bem cotidiano. Apesar de já viver sob o regime ditador da Alemanha, Anne foca naquilo que lhe diverte e interessa. Conforme os dias vão passando aumentam as restrições, até que ela se encontra em isolamento com sua família e os Van Pels.  E começam as pequenas brigas por espaço, por atitudes, por comida, enfim, tudo o que se espera de um grupo como esse em confinamento. E mais além, até cheguei a me assustar como me identifiquei com seus pensamentos e até modo de escrever. Uma familiaridade que ainda não sei explicar.

Observando o que Anne descreve, vamos notando seu amadurecimento como escritora. Há vários trechos adicionados posteriormente, quando ela decide que vai publicar seu diário quando a guerra terminar. É nessa reescrita que fica mais claro sua preocupação com forma, conteúdo e estilo. O seu amadurecimento como pessoa caminha junto com esse desenvolvimento como grande escritora.

O diário era sua válvula de escape, seu melhor amigo, seu motivo para seguir resistindo no cansativo enclausuramento. Há mais dias ruins, alguns bons. Sua relações com as pessoas mudam. Sua mãe lhe parece a inimiga número 1 em dado momento, em outro alguém que está tentando fazer o melhor. Peter, o filho do outro casal que também se abriga com eles, passa de garoto bobo e desinteressante para um grande amor em sua vida. Somente seu pai deixava a mesma impressão constante durante todo o tempo.

Mas antes de chegar nesse ponto, quando as coisas mudam de fato, eu havia parado com a leitura. Me mudei de país, sem saber quando, e se iria voltar, me foquei em outras coisas e li o diário com menos frequência.

Foi então que decidi voltar ao Brasil. Depois de ficar 5 meses e algumas semanas na Irlanda eu percebi que lá não era mais o meu lugar. Comecei os preparativos para o retorno e fui checar a passagem de volta. Era para o dia 3 de setembro de 2017. Havia uma parada em Amsterdã de 23 horas. Eu vi ali então uma oportunidade que talvez nunca mais teria.

Pesquisei sobre a Casa de Anne Frank, que é o museu criado no prédio e adjacências, de onde fica o então anexo secreto. Ingressos extremamente concorridos, e por um preço até razoável. Mas esgotados para o dia 3 de setembro. Eu entrei todos os dias no site para comprar os ingressos e voltei a ler o diário. Nem que fosse apenas para passar na porta do lugar e conhecer os lugares por onde Anne cresceu e viveu, eu queria fazer isso com o diário todo lido.

No dia 25 de agosto foram colocados novos ingressos para aquela data à venda. Eu mal pude acreditar! Tinha me informado que a alternativa seria ficar em uma fila em frente ao museu e aguardar o último horário para entrar sem hora marcada, correndo o risco de não haver entradas suficientes. E pelo que percebi quando lá cheguei, teria que passar praticamente todo o dia naquela fila por uma chance. A fila é bem grande e só vai crescendo ao decorrer do dia.

Aproveitei e comprei também ingressos antecipados para o museu de Van Gogh, esse sim eu poderia ter deixado pra comprar na hora, pois por conta dele tive que apressar o final da minha visita ao museu de Anne Frank. Meu relógio de pulso estava com o horário da Irlanda, que é 1 hora atrás do horário da Holanda, então cheguei na pequena fila de entrada para quem já tinha ingresso com mais de meia hora de atraso achando que estava adiantada. Me alertaram sobre o atraso, mas por sorte pude entrar.

Ter lido mais do diário fez toda a diferença. Melhor teria sido se tivesse lido tudo, mas não houve tempo. Deixo o relato sobre essa visita para outro momento. O que adianto é que tudo se torna muito mais real quando você se encontra, literalmente, entre as paredes daqueles cômodos apertados.

Andar pelas ruas de Amsterdã, que não mudou tanto desde aquela época, é quase uma viagem no tempo. Senti um clima de nostalgia sem precedentes. Era minha primeira vez por lá. Me distraí com a paisagem, quase fui atropelada diversas vezes por bicicletas (e senti imensa falta da minha bicicleta que ficou na Irlanda). De volta ao Brasil continuei a ler o diário. E percebi que nunca mais o leria como antes.


quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Estudos sobre Anne Frank – Parte 1: Apresentação




Há dois anos comecei a ler o famoso Diário de Anne Frank  fazendo um estudo abrangente sobre vários aspectos que de forma direta ou indireta estão ligados a ele. Escrevi textos sobre minhas percepções e relatei minha experiência pessoal de como recebi a obra, como a abordei e o que isso reflete nos dias de hoje.

Muitas pessoas tem uma pré-concepção sobre o Diário e depois de lê-lo (ou nem conseguir terminar) acabam não encontrando ou não entendo o porquê dele ser tão lido, tão famoso e tão celebrado. Conversando com pessoas que se interessaram sobre o Holocausto, algumas me disseram que esperavam mais dos relatos de Anne, pois não estão ligados diretamente à guerra, por ter apenas o ponto de vista dela enquanto uma jovem enclausurada com sua família e estranhos para fugir da pior parte da guerra.

Há exatos 74 anos, em 1 de agosto de 1944, Annelies Marie Frank escreveu sua ultima entrada no diário, onde explicou da forma mais honesta possível como ela se via por fora e por dentro, como duas pessoas de personalidades opostas, “um feixe de contradições”. É nesse tom sincero e vulnerável que Anne se despede de seus leitores, sem saber que em 3 dias seus maiores medos começariam a se tornar realidade.

O registro de Anne é memorável por nos colocar no ponto de vista de uma adolescente que não estava apenas tentando entender sua própria vida, mas toda a essencia da humanidade. E ela precisava fazer essa reflexão que já é tão complexa para um adulto, pois não havia outra maneira de entender o que estava acontecendo. Era tudo tão logicamente absurdo, mas mesmo assim, aconteceu.

Por entender a importância grandiosa desse livro e seu impacto causado até nos dias de hoje, decidi publicar meus estudos abordando vários aspectos relacionados ao Diário, desde os primeiros avisos de um conflito iminente, passando por alguns fatos sobre os Frank, até a concepção do diário, sua publicação e outros fatos posteriores que tiveram relação com ele.

A forma de publicar esse estudo será bem diversa, farei resenhas e análises de outros livros acerca do tema, de sites oficiais como A Casa de Anne Frank, indicação e produção de vídeos, além de contar com a participação de outros leitores e interessados no tema para contribuir com o enriquecimento dessa obra. Acredito que essa é a melhor forma de propagar o legado de Anne Frank, conscientizando as futuras gerações sobre um passado que não deve se repetir jamais.

Vocês podem acompanhar todas as etapas desse estudo aqui no blog e também no meu perfil do Twitter.

OBS: Texto reescrito em 04/08/2018 para se adequar ao propósito desse estudo.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A volta dos que não foram

Fazem mais de 2 anos desde a minha ultima publicação no blog. Muita coisa aconteceu desde então e por isso eu deixei a maioria dos meus projetos pessoais de lado, foi realmente uma necessidade.

Relendo meu ultimo texto aqui postado, sobre meu livro A Trilha, eu percebi bem o que mudou de lá pra cá. Não é minha intenção entrar nesse assunto agora, mas acredito que desde aquela época eu já me encaminhava para um outro projeto que estou trabalhando ultimamente. Eu não deixei o livro de lado, é algo que estou retomando também, mas de forma mais lenta e cuidadosa.

A Saga Linear é minha primeira série, mas espero não ser a ultima. O foco agora é nela e o trabalho no primeiro livro me ensinou muito. Já sinto a pressão, mesmo que pequena, que existe ao entregar uma continuação que atenda ou mesmo supere as expectativas dos leitores. Quando o livro é só seu, quando ele faz parte apenas do seu mundinho, você tem liberdade total. Uma vez que o lança para o mundo real, ele ganha vida própria e você deve seguir as bases já definidas.

Isso não significa que o segundo livro será previsível, pelo contrário. Significa que ele precisa ser coerente dentro daquilo que se propõe. Aliás todas as histórias deveriam ser assim. Estando aqui do outro lado agora, do criador, eu entendo como o nosso ponto de vista muda tudo.

Escrever nunca é fácil, mas não escrever nada é impossível.

domingo, 27 de setembro de 2015

Escrever, publicar e aceitar

Faz muito tempo que não posto nada aqui, então decidi escrever sobre algo que ando fazendo ultimamente: divulgando meu livro.

Quando comecei a escrever a Saga Linear, mal sabia o que encontraria pela frente. Meu foco sempre foi na história. Nos personagens, na trama e nas consequências que cada ato teria adiante. Por mais que eu tenha me preparado para criar uma história com uma estrutura complexa e longa, eu não sabia se estava fazendo algo que agradaria a meus futuros leitores. Vou me explicar melhor.

Você passa anos com uma ideia na cabeça, mas não faz nada sobre isso. Daí você começa a colocar tudo no papel e vê o quanto é realmente complicado. Porque na sua cabeça as coisas funcionam bem melhores do que na vida real. Mas aí, eu fui dando formas a essa história, escrevendo eventos do passado, criando características para os personagens e traçando sua trajetória. Além disso tudo, tem a questão da narrativa, das referências em camadas e em níveis dos mais óbvios aos mais obscuros.

Tudo isso no formato de um romance com gêneros que são tão amplos que eu acabo me esquecendo de um ou outro: mistério, aventura, romance, ficção científica, ação, terror. Sem contar que, esse é o primeiro livro que eu escrevo na vida. Eu já escrevi muito nessa vida, principalmente desde que conheci a internet em 1999. Já escrevi em sites, blogs, revistas e até em boletim de grêmio recreativo de uma empresa em que trabalhei. Sei que jornalismo nunca foi minha praia, por isso me formei em letras, sem saber muito bem o que eu iria fazer na vida futuramente. Letras não é bem um tipo de curso indicado para quem quer ser escritor, mas isso já é assunto para outro texto quilométrico.

A questão é que, você pode ter todo esse trabalho e no fim das contas criar algo que ninguém gosta. Especialmente se você escreveu algo pensando apenas no seu próprio gosto. Não existe nada de errado nisso, mas tenha em mente que você só irá agradar a pessoas que vão conseguir te entender. E é exatamente aqui que continua o questionamento que fiz no segundo parágrafo: quem vai gostar do que eu escrevi?

A melhor forma de saber isso é simplesmente perguntando as pessoas. Mas antes de fazer isso, você tem definir outras coisas: quem é seu público? Eu escolhi o público chamado "jovem adulto" (ou YA - young adults) que nos EUA é um dos maiores filões do mercado literário, e que aqui no Brasil ainda não tem uma definição oficial, apesar de também ser muito importante. Algumas editoras os chamam de infanto-juvenil (o que me fez encontrar Jogos Vorazes nessa sessão de uma grande livraria em SP) uma denominação que não consegue definir de forma clara esse público. O YA americano se foca nas idades entre 14 e 21 anos, ou seja, abrange grande parte do publico adolescente e uma parte do chamado "publico adulto". Então, resumindo, eu escrevi pensando nesse público, nos jovens de todos os gêneros e classes que tem entre 14 e 21 anos. É claro que pessoas mais velhas e até mais jovens irão consumir esse tipo de livro, mas não se esqueça de seu foco. Esse foi o meu.

No Brasil cerca de 50% dos livros mais vendidos de 2014 eram voltados para o público YA. Não é esse o motivo de eu ter escolhido esse público, mas sim porque foi assim que minha história surgiu, com um perfil de YA. E porque também gosto muito de escrever para esse público, o que é bastante gratificante para mim. Quando os jovens gostam de algo, eles são bastante diretos sobre isso e quando não gostam também. Por isso que ao buscar a opinião de quem leu meu livro, eu me preocupei em avaliar 2 coisas: 1) essa pessoa faz parte do meu público alvo? e 2) a opinião dela reflete essa questão?

Pois meu processo foi esse: Trabalhei anos numa história; a transformei em um livro que é apenas o primeiro de uma série que terá pelo menos 3; pedi a opinião de 2 pessoas próximas para me dizerem  que acharam; as duas pessoas adoraram, mas deram pouco retorno; então eu publiquei o livro - de forma gratuita para facilitar a divulgação da série e para obter mais opiniões sobre ela. E eu recebi e ainda recebo essas opiniões.

No próximo dia 2 de outubro fará 1 ano que "A Trilha" foi lançado. Mais trabalhoso que escreve-lo foi convencer outras pessoas que valeria a pena dar a uma chance a ele, e lê-lo. Porque ao mesmo tempo que eu acredito no potencial da minha história, eu também sei que ela pode ter os seus problemas, ser mal compreendida ou simplesmente desagradar. Seres humanos são imprevisíveis e saber o que eles vão gostar ou não é algo tão imprevisível quanto nossa própria natureza. E eu tenho bastante ciência disso.

E por isso mesmo eu tenho bastante cuidado ao ler resenhas e comentários em geral sobre o livro. E sei que muitos autores já surtaram com a opinião que emitiram sobre sua obra. Tanto que alguns blogs evitam resenhar livros recebidos de escritores independentes, pois vários maus entendidos já aconteceram. É complicado dizer quem está certo ou errado nesses casos, o que posso dizer de minha parte é que eu tento manter o meu bom senso ao ler uma crítica, sem nunca me esquecer daqueles 2 pontos que eu citei. Eu posso dizer que até o momento fui bem recebida pela grande maioria das pessoas que decidiram ler meu livro.

Mas ainda acho que tenho poucas opiniões e quero ir mais longe, por isso não deixo de trabalhar todos os dias na divulgação dessa série. Minhas atuais condições não me permitem pagar por uma divulgação mais eficiente (fiz algumas campanhas nesse sentido, mas o retorno não foi tão bom quanto o esperado) e muito menos contratar uma pessoa ou uma empresa para cuidar disso.

Infelizmente não foi assim desde o começo, por conta de outras obrigações e de trabalho que de fato me remunera financeiramente, acabei deixando o trabalho de divulgação de lado e o livro ficou um pouco esquecido. Mas estou revertendo esse quadro criando mais contatos e trabalhando no segundo livro, que deve ficar pronto em dezembro.

O que eu queria concluir de toda essa reflexão é que lançar um livro é um processo longo e cansativo, que pode ser bastante positivo se você souber aproveitar as oportunidades e saber como lidar com os imprevistos. As opiniões que recebo me ajudam a melhorar minha escrita e também a perceber que muitas das intenções que criei dentro da história estão sendo notadas pelos leitores. Alguns ainda não entenderam bem do que a jornada de Alexis Vienna (minha personagem principal) se trata, e minha vontade é de poder dizer que certas coisas são intencionais e que existe um motivo para tudo. Mas como autora eu não preciso dizer isso. Aliás, nem devo, pois sei que os próximos livros falarão por mim. E realmente espero que eles entendam.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Impressões de 'Songs Of Innocence' do U2


Com tudo o que está acontecendo em nosso país agora, resolvi deixar as ponderações políticas de lado e mergulhar um pouco nas vertentes musicais da banda que mais admiro, o U2. É meio irônico tentar "esquecer" da política pensando sobre uma das bandas mais engajadas no assunto, mas essa é minha forma de abstrair um pouco. Até porque já se vão 7 meses do polêmico lançamento do álbum e acho que agora é um bom momento para se tirar conclusões mais precisas sobre as músicas, esquecendo as reclamações de quem achou um abuso receber as músicas gratuitamente (isso já renderia outro texto extenso).

Começo avisando que li poucas críticas acerca do disco na época do lançamento. A grande maioria da chamada "crítica especializada" costuma ter um olhar mais genérico e superficial sobre o conteúdo analisado. O fato de eu ser fã da banda pode me tornar mais suscetível a gostar das músicas, mas não me torna cega em relação a sua qualidade. Eu não gosto de tudo o que U2 lançou, principalmente na última década (e isso também renderia outros tantos textos gigantescos e que não vem ao caso), mas sendo uma fã, consigo entender temas e intenções mais profundas que passariam batidas para os críticos. Cada um de nós - críticos e fãs - terá sua própria visão desse trabalho e nenhuma delas é melhor ou mais certa do que a outra. São pontos de vistas diferentes, pura e simplesmente.

Passadas as considerações iniciais, vamos ao álbum em si.